dialogue #09
Fiat Vita
Catarina Marques Domingues
Opening 5 April 2025
17h
Curated by Alberto Caetano
Artist Book with Tomás Maia
A alma é o órgão da mortalidade inventado para diagnosticar o amor. O desenho é o exercício da mortalidade inventado para traçar o amor. Todo o desenho, neste sentido, é desenho animado.
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Desenhar o órgão desconhecido, inoperável — o órgão que é puro derrame, liame após liame. Desenhar a alma, e não este ou aquele objecto, sempre foi o intento do desenho.
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Desenhar é procurar o ponto em que a vida se derrama. O ponto em que se dá a transfusão. Por vezes, não há diferença entre esvair-se em tinta ou em esperma — tudo é volúpia e pavor de um líquido findar. Sobretudo quando a transfusão é directa para a noite.
Mas não é a mesma coisa fazer a transfusão com tinta ou com esperma. O esperma contém todos os que não nasceram, a tinta é a reserva dos que já morreram. E se o «homem prossegue negro sobre branco», é porque nos alimentamos de uma essência obscura e leitosa que jaz no fundo de um tinteiro.
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Magma, gestação, turbulência, células, galáxias, placenta, embriões, astros, que se expandem, que definham, em filamentos, em derrames, no primeiro dia da vida ou do universo. Sequência infinita de transfusões — eis o desenho que persegue a formação da forma: a forma formando-se em perpétua libertação.
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Se ela não desenhasse, coagulava. Tenho a certeza. Não falo somente do seu sangue, mas de toda a água que forma o seu corpo. A nascente do desenho é esse leito que lhe percorre o corpo.
Cada vez que o seu braço se prolonga para riscar, cada vez que ela é tomada por um júbilo letal: há o risco de que o corpo inteiro se fluidifique e que ela desapareça líquida, liquidada, na página.
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Ela só queria morrer dentro dele como um coágulo numa vaga entre dois séculos. Ela só queria partir a fundo perdido e esperar que o extravio não fosse reclamado. Ela queria sobretudo nascer a conta-gotas e derramar-se num dia — luminoso e lustral — sobre o corpo macio de uma criança.
Como queria tudo isto, ela começou a desenhar.
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Eis o mundo antes de ser formado: estes desenhos captam o terrível momento em que não se sabe se alguém vai nascer ou morrer, numa substância abúlica e sanguínea. Suprema hesitação da matéria: o nascimento da forma ou o magma que se desfaz.
(Desenhos revolucionários no sentido em que Blanchot caracterizou a literatura: expressão do instante em que tudo é possível.)
— Tomás Maia