dialogue #15

O eco das palavras mudas

Eduard Arbós + Fernando Prats

Opening 7 Feb. 18h

Performance 19h

Curated by João Silvério

Eco e revelação

 

Este projecto expositivo é um mapa de encontros e de revelações entre dois artistas que percorrem um caminho de cumplicidade e amizade e, nesse cruzamento de afinidades, foram escutando e observando formas, meios, acções, especulações e modos de fazer no campo da arte e da sua relação estreita e orgânica com a vida e com os ecos que dela são testemunhos e ficções.

Assim, o eco das palavras mudas é um repto ao que é visível na relação com a possibilidade da palavra como elemento discursivo e com a invisibilidade. Neste sentido, ocorre-me um fragmento de uma leitura de um texto de Rancière que alude a uma frase célebre do poeta latino Horácio: Ut pictura poesis, uma relação entre formas de expressão artística que “define duas relações essenciais: em primeiro lugar, a palavra faz ver, por via da narração e da descrição, um visível não presente; em segundo lugar faz ver o que não pertence ao visível, reforçando, atenuando ou dissimulando a expressão de uma ideia, ao fazer sentir a força ou a retenção de um sentimento.”[1]

Deste modo, a ideia de eco e palavra, de mudez e ocultação, de revelação e retorno ao eco que permanece e se replica sem se repetir, provoca, do meu ponto de vista, uma aproximação poética, mas também política, entre a imagem e a palavra, que pode ser muda, não falada ou sequer pronunciada, sem liberdade. Mas pode ser pensada, porque sabemos uma linguagem que produz significado e uma relação, nem sempre imediata, com a imagem enquanto campo de possibilidades de interrogar os modos de ver.

O trabalho de Eduardo Arbós possui uma componente gráfica e visual muito forte, que o artista vai deslocando e transformando numa plasticidade que percorre referências da imagem cinematográfica até uma síntese da pintura e do desenho, privilegiando nesta exposição a ausência da cor. O texto, a palavra, é também objecto de um processo de transformação plástica e visual, protagonizando uma escultura construída no espaço da galeria através de uma acção performativa metódica e geométrica, mas violenta. Esta obra, uma frase em duas linhas perfuradas com um berbequim eléctrico, estabelece uma conversão do alfabeto tradicional latino para o alfabeto braille, comummente uma forma de escrita (e de correspondente leitura) em alto relevo para pessoas invisuais, que Arbós inverte como se a parede fosse uma fita perfurada e encriptada com a frase Nothing to see beyond the line.

Esta obra coloca duas questões, entre tantas outras... A primeira deve-se ao facto de que a frase enuncia uma contradição entre o que é visível e o que não se revela de imediato. A segunda é de cariz mais auto-referencial, porque o alfabeto braille, a visão e a experiência sensível do mundo foram situações e tensões que o artista experienciou num período em que temeu perder a visão.

Numa correspondência aparente, utilizando um processo de velatura/ocultação e revelação assimétrica, Fernando Prats realiza também uma performance para construir uma escultura que se desenvolve como uma linha ao longo da parede em frente à obra de Eduardo Arbós. Esta obra (que é também uma referência do seu trabalho em vídeo), intitulada Acción, Chaitén. Sismografia de Chile, é iniciada com uma acção performativa do corpo fluido sobre vidro e fumo moldados pela boca e saliva do artista, num gesto e tremor de uma corporalidade primitiva e tectónica, como se fosse uma subducção geológica e oceânica (nota do artista) ou sinestésica, cruzando sentidos e sensações numa expressão de êxtase poético e sensorial. O fumo, essa substância imaterial, é ao mesmo tempo mágica na mudança de estado físico que se reifica afinal como um registo, uma espécie de pele seca e frágil como um sopro, que dá a ver imagens indefinidas e independentes do gesto inicial, iniciático e ritual como uma defumação do mundo onde o artista desenvolve a sua poesia e assim o seu modo de revelação, sem a narrativa cronometrada da história.

A exposição é, deste modo, um eco de expressões artísticas que se encontram, mas é também um correlato histórico do trabalho dos autores, em que o desenho é o corpo no tempo do desenho que se faz desenho: imagens de filmes e continentes,  desenho a fumo e grafite, desenhos a negro e branco entre a força riscadora da grafite sobre a folha de papel, e esta embebida pelo rasto do fogo a tactear a superfície, aproximando a destruição, o desejo e a criação (Bachelard).

Mas estes desenhos são também ressonâncias de um mundo que os dois artistas percorrem, como podemos observar nas obras em vídeo que cada um traz na sua bagagem.

Nos “Mapas mudos” de Prats descobrimos continentes, lugares de desespero como por exemplo “Mapa mudo, 2023 (Gaza)”, mas também “Mapa mudo, 2023 (11 de septiembre 1973. (América del Sur)”, um recorte escavado sobre uma fotografia de uma bateria de soldados e Salvador Allende, perdido no tempo suspenso do Chile, país natal de Fernando Prats. A linguagem, o trocadilho sério sobre a mudez, no jogo que só a linguagem permite, na palavra não dita (?) dos “Mapas mudos”, que são mapas sem o mundo da humanidade e dos que perdem a liberdade. Entre os mapas que fazem parte da exposição, encontramos um outro, intitulado “Mapa mudo, 2023 (11 de septiembre 1973. (Estados Unidos)”, sobre a mesma matriz fotográfica do anterior.  Essa matriz, essa mesma imagem, enquanto referente, está também presente nos desenhos de Eduardo Arbós que são identificados por siglas, por exemplo D-0425-H/LX, feito a partir de um filme de Anthony Hayes (2022), ou ainda D-0325-H/LX, rememorando o intemporal 8 1/2 de Federico Fellini (1963). Essas histórias prosseguem por desenhos quase sem referências visuais identificáveis de imediato, mas que incluem Tarkovsky, Wenders, Chaplin e tantos outros, anotados num índice próprio.

Este é um momento em que as geografias políticas são apropriadas para dar corpo a uma forma universal, presente na criação artística e no espírito da liberdade e da poética, perfurada, soprada ou lambida no eflúvio do fumo. Entre a dor e o espanto, um eco chama pelas palavras mudas.

 

João Silvério

[1] Cf. Jacques Rancière, O Destino das Imagens, Orfeu Negro, Lisboa, 2011, p. 21.