dialogue #16

Francisca Pinto

O Dia Está Pronto

Curated by Filipa da Rocha Nunes

>16 May

Os desenhos, então,
desenvolvem-se como um fio de pensamento. E vão:

Pedra
Pedra e horizonte
Pedra, horizonte e figura
A figura inclina-se sobre a pedra
O horizonte fica inclinado
Aparece uma árvore
Agora temos duas pedras
Agora estamos mais perto, temos várias pedras
Agora a pedra é um pé
E agora temos uma perna ligada ao pé
A perna transforma-se numa árvore
E o pé transforma-se numa pedra


– Francisca Pinto

Imagens (para Francisca Pinto)

Naquele dia em que pintaste

o horizonte,

informada de que incontáveis

pinturas do horizonte

já teriam sido concretizadas e

existem, expostas nos museus

internacionais,

possíveis de visitar em qualquer dia

entre as 9h e as 17h, 

tu dizias:

A paisagem vai olhar-me de volta,

e vai, também ela, querer ser

um algo-eu.

E poucas coisas mais íntimas:

Torno-me todas as imagens.

O tempo dela é encantador. Não me refiro aos seus tempos livres, mas a como encontra os minutos entre os goles de água, como espera meio segundo para entrar depois de alguém sair pela mesma porta, ou como olha nos olhos e aguenta três cadências antes de perceber outro sujeito, e ainda assim decidir suster mais um pouco essa imagem, a flirtar com o Cronos.

A lista continua: como corta a maçã em oito meias-luas iguais para depois remover a casca e pingar com mel de urze, o mais escuro, no prato de sobremesa, comendo cada pedaço com a tranquilidade de quem anuncia ao corpo as partes boas do dia, em tom de briefing da ordem de trabalhos, com uma longa pausa entre os dois primeiros e os seis últimos pedaços.

Visito-a de manhã, uma vez por semana, na esperança de encontrar esta imagem, uma das favoritas que tenho suas, que roubei para mim e que, não resisto a reproduzir quase sempre nos dias seguintes. É difícil mimetizar o seu longo compasso de espera entre as fatias, porque sou gulosa de boca, mas tento, tento sempre, numa homenagem ao seu ritmo.

Depois do pequeno-almoço veste-se rapidamente para sair. Pára três segundos em frente ao espelho, o suficiente para me informar de que será aquela a nossa segunda imagem favorita, enquanto me conta que os espelhos só reflectem o mundo porque querem ser o mundo. E que, sendo demasiado indecisos para escolher que parte do mundo querem ser, lhes foi concedida a pele-reflexo, para serem tudo o que virem durante o dia, sem nunca poder ser definitivamente. Um pouco como eu, que só a visito porque gosto de como come a fruta, e que, depois de a ver, me torno ela a comer a mesma fruta.

Bebe água constantemente em intervalos que interrompem o dia, tal e qual campainhas inesperadas, para manter a pele de vidro hidratada. Ao contrário dos espelhos, a água sabe exactamente o que quer ser. A água quer ser tudo o que puder e avisa a Terra quando a atravessa, a toda a hora a atravessa, deixando bem claro: em algum momento eu vou ser tu e tu só vais sobreviver se te juntares a mim. Continua: é que eu estou a coleccionar, todos os dias a coleccionar, em cada lugar teu por onde passo, a aprender mais um pouco sobre ti.

Realizei então que o alívio que se sente depois do mergulho no mar é o pacto que fazemos com a água que nos leva tudo, tudo nos leva para o seu arquivo. Depois do mergulho, sentamo-nos relaxadas numa rocha em frente ao oceano. Essa rocha não se torna numa cadeira ou num banco, mas naquela ocasião serve-nos de cadeira ou de banco. E para estancar os arranhões nas canelas de caminhar sem experiência pelas pedras, aparece sempre um pedaço de pano que sabemos continuará a ser um pano, apesar de ter sido também adesivo curativo.

Os objectos que não se melindram por, numa ou noutra situação, ser outras coisas por alguns minutos, ajudam-nos a preparar o dia. Generosos, salvam-nos na evidência de que se pode ser outrem, sem prejuízo para o seu, jovens lendas da grande vertigem, viva e preciosa. Talvez afinal não se trate de generosidade, e até seja algo egoísta: a expressão da gravidade da fantasia.

As pinturas de Francisca Pinto entregam-nos os signos do encantamento, esse espaço transitório que permite a suspensão da ordem habitual. Se a missão é o propósito, a permissão será a sua concretização exponencial. O tempo parece parar enquanto se disfruta de um gozo circunstancial em que os limites se esbatem, para alívio geral. A hierarquia entre corpo humano, recursos naturais e paisagem reorganiza-se, caducando o sistema de classes anterior com validando as matérias intermédias que habitam a transição entre corpos. 

Como se as imagens do nosso imaginário colectivo se consentissem, também elas, derreter, e originar outras, desmontando o sistema de categorização que define o passado como período gerador de memória, e isso resultasse a resposta mais franca e amorosa aos dias que vivemos. 

Março de 2026

Filipa da Rocha Nunes

Project Space:

Madalena Anjos

Para Além de Nunca Antes

Onde nunca ninguém foi (que se saiba)

Poderá negar-se a transversalidade do problema do espaço em branco? 

É de todos e de todas as eras, e uma exploração exaustiva ameaça tornar-se infindável. 

Será útil referir que o espaço não precisa de ser exactamente branco, e que por este motivo também o escuro que atemoriza as crianças e tantos adultos, enquanto tela onde se podem projectar angústias e terrores, cabe na categoria.

A cartografia, que oferece vastas possibilidades metafóricas, poderá proporcionar alguma orientação quanto ao modo de tratar o espaço em branco, de representar o desconhecido. 

 Antes da vitória, que se supõe ainda hoje irreversível, da ciência povoava-se.o vazio nos mapas com produtos da imaginação, monstros bíblicos e criaturas maravilhosas, serpentes aladas, dragões com penas, hominídeos cujos corpos se compunham de um único e gigantesco pé encimado por um único e gigantesco olho, muito à maneira de Odilon Redon. 

Mas a idade da razão, que desembocou nos excessos que se conhecem, pegou em todas essas criaturas e colocou-as na mesma categoria, delírios que era importante eliminar da meticulosa descrição dos territórios. 

Onde não havia informação sobre aquilo que aí existia substituí-los por espaços em branco, pois a razão,.como se sabe, é bastante literal. 

Ao desconhecido não deviam atribuir-se características que não se tinha a absoluta e científica certeza que possuía. Não se tendo conhecimento preciso daquilo que existia tinha-se no entanto uma certeza absoluta em relação àquilo que não existia. Não passavam de abominações, devaneios, fantasias. 

Entre os monstros e o rigor científico não poderia haver diálogo.

Os mapas do século XVIII em diante rasuraram a imaginação, não se lhe sobrepuseram, como talvez tivesse algum interesse em fazer-se, criando-se uma síntese entre razão e fantasia. 

A Madalena Anjos, que não desenha mapas,  - ou talvez desenhe, não há uso metafórico que não se possa dar aos mapas - opera essa síntese. 

Não convoca monstros bíblicos para as suas composições rigorosas mas invoca, sobrepostos, acumulados, por vezes alucinatórios, outros seres da imaginação.   Está permanentemente para lá do conhecido, aventura-se e envia, para nossa edificação, relatórios daquilo que para lá encontra. 

Reporta, como os cartógrafos, e preenche esses espaços em branco onde o conhecido e o desconhecido coexistem. 

– Rodrigo Magalhães

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