CABEÇA QUENTE
João Loureiro + José Taborda
Ao entrar na conversa que gerava esta exposição, os dois artistas apresentaram-me um trabalho feito em conjunto chamado Lotaria, 2026. Era um molde de silicone para a reprodução do que imediatamente se reconhecia como uma “lâmpada mágica”. A lâmpada de Aladino, enquanto contentor, não apresenta na sua exterioridade uma medida adequada àquilo que supostamente contém. Também não actua como origem do poder, apenas como suporte e dispositivo de acesso. Ainda assim, é a lâmpada que primeiro reconhecemos, e não o seu hóspede: a sua interioridade fantástica permanece cativa de um corpo de carácter doméstico. O molde de silicone, no seu aspecto utilitário, permitiria reproduzir fielmente a exterioridade do objeto. Embora o objecto tenha acabado por ficar de fora da arena central da exposição, abriu a questão: como ler e pensar a instabilidade entre a forma e a acção dos objectos?
Na ideia de “animação” pressupõe-se uma passagem da matéria enquanto coisa inerte para a matéria enquanto portadora de um princípio de acção. É um gesto comum a João Loureiro e José Taborda: mais do que produzir movimento, trata-se de fazer surgir a hipótese de uma interioridade e de uma nova agência, que deixa de pertencer inteiramente a quem animou. Quando deparamos com És uma estrela (2026), de José Taborda, uma mesa de madeira tem uma das pernas terminada num patim em pirueta perpétua. O dispositivo torna-se autor de um desenho interminável sobre um único ponto do chão e passa a ser lido como agente, não apenas como suporte.
Em Sapiens, Loureiro expande a questão da interioridade para outra escala. Uma reprodução ampliada de um crânio — forma historicamente associada à vanitas e à natureza-morta — serve de suporte a uma projecção que parece abrir uma janela para o seu próprio interior. Ao crânio, recipiente que assumimos como esvaziado daquilo que o habitava, Loureiro devolve um conteúdo, desta vez geológico: uma caverna. Dentro dela, gotas caem esporadicamente de estalactites para estalagmites, num processo lento que participa na formação da própria topografia do espaço. Uma escala aloja outra que a excede, tanto na forma como na noção do tempo.
No trabalho de José Taborda, coloca-se também a questão da confiança que depositamos naquilo que percepcionamos. É quando uma causa deixa de produzir o efeito que dela esperamos que essa confiança começa a falhar. Em Sem Título, de José Taborda com Andreia Santana, uma faca de gelo derrete sem que o seu derretimento alguma vez se complete. O tempo passa, mas não cumpre a consequência material que julgávamos inscrita na matéria. A percepção regista uma transformação ao mesmo tempo que é impedida de assistir ao seu desfecho. A confiança que depositamos na nossa percepção e na leitura dos objectos é também instável.
Taborda introduz uma impossibilidade semelhante noutro regime. Em Plateia (2026), um cavalo voador pode ser visto simultaneamente em planta e em alçado. A questão deixa de ser a possibilidade de um cavalo voar para passar a ser a possibilidade de o representar. O problema já não reside no sonho, mas nos instrumentos através dos quais tentamos dar-lhe forma. Em Long Neck (2013), de João Loureiro, uma garrafa quebrada é reconhecível à escala real e a sua condição leva-nos imediatamente a ler o objecto doméstico como arma em potência. Mas essa passagem é provisória, a materialidade do objecto logo contradiz a função convocada pela forma.
É talvez aí que os trabalhos dos dois artistas mais claramente se aproximam. Não numa iconografia comum, mas numa relação a própria ideia de dispositivo. Tomam partido de sistemas de regras e operações que deixam de garantir o resultado para o qual aparentemente foram construídos. O humor é, mais do que um recurso, um resultado da lida com o absurdo.
Em Besta Quadrada, de Loureiro, esta instabilidade passa também pela possibilidade de uma agência adquirida. O papagaio é um animal que habitualmente “programamos” para repetir palavras que pressupomos não compreender. Aqui, enquanto caminha sucessivamente em círculos por aquilo que pode ser uma interioridade infinita, sem paredes, através da repetição da acção, deixa de assegurar a obediência ao programa. A cada volta, permanece em aberto a possibilidade de que este objecto-personagem adquira alguma coisa como intenção ou uma agência que já não coincide com a função que lhe foi atribuída.
Regressando à lâmpada de Aladino, à questão da interioridade e da agência, o seu interesse não reside tanto na dimensão fantástica quanto na suspeita de que um objecto ou uma situação possa sempre conter mais do que aquilo que a sua forma deixa prever. Nos trabalhos de Loureiro e Taborda, essa distância entre aparência, função e acção nunca chega a estabilizar: os objectos cumprem parcialmente as regras que os tornam reconhecíveis, apenas para depois as desviar. Talvez a questão seja, então, outra: quando é que um objecto passa de ser suporte para ser um próprio performer?
Isabel Cordovil
ENG.
(HOT HEAD)
João Loureiro + José Taborda
When I entered the conversation from which this exhibition emerged, the two artists showed me a work they had made together entitled Lotaria (2026). It consisted of a silicone mould for reproducing what was immediately recognisable as a “magic lamp”. As a container, Aladdin’s lamp bears no outward relation of scale to what it is supposedly able to contain. Nor is it itself the source of power, but rather its support and means of access. And yet it is the lamp that we recognise first, not its inhabitant: its fantastical interior remains captive within a body of domestic character. In its utilitarian capacity, the silicone mould would allow the object’s exterior to be faithfully reproduced. Although the object ultimately remained outside the central arena of the exhibition, it opened up the question: how might we read and think through the instability between the form of objects and the actions they perform?
The idea of “animation” presupposes a passage from matter as an inert thing to matter as the bearer of a principle of action. This gesture is common to both João Loureiro and José Taborda: rather than simply producing movement, it is a matter of giving rise to the possibility of an interiority and a new agency, one that no longer belongs entirely to whoever set it in motion. In José Taborda’s És uma estrela (2026), a wooden table has one of its legs ending in an ice skate caught in a perpetual pirouette. The device becomes the author of an endless drawing traced over a single point on the floor and comes to be read as an agent rather than merely a support.
In Sapiens, Loureiro expands the question of interiority to another scale. An enlarged reproduction of a skull — a form historically associated with vanitas and still life — serves as the support for a projection that seems to open a window onto its own interior. To the skull, a vessel we assume to have been emptied of what once inhabited it, Loureiro restores a content, this time geological: a cave. Within it, drops fall sporadically from stalactites to stalagmites, in a slow process that participates in shaping the very topography of the space. One scale contains another that exceeds it, both in form and in its conception of time.
José Taborda’s work also raises the question of the trust we place in what we perceive. It is when a cause ceases to produce the effect we expect of it that this trust begins to falter. In Sem Título, by José Taborda with Andreia Santana, a knife made of ice melts without its melting ever reaching completion. Time passes, yet fails to fulfil the material consequence we believed to be inscribed in matter. Perception registers a transformation while simultaneously being prevented from witnessing its conclusion. The trust we place in our perception and in our reading of objects is itself unstable.
Taborda introduces a similar impossibility in another register. In Plateia (2026), a flying horse can be seen simultaneously in plan and elevation. The question shifts from whether a horse can fly to whether it can be represented. The problem no longer lies in the dream, but in the instruments through which we attempt to give it form. In João Loureiro’s Long Neck (2013), a broken bottle is recognisable at life size, and its condition immediately leads us to read the domestic object as a potential weapon. But this shift is provisional: the object’s materiality soon contradicts the function invoked by its form.
It is perhaps here that the practices of the two artists most clearly converge. Not through a shared iconography, but through their relationship to the very idea of the device. They draw on systems of rules and operations that cease to guarantee the outcome for which they were apparently constructed. Humour is, more than a device, an outcome of engaging with the absurd.
In Loureiro’s Besta Quadrada, this instability also emerges through the possibility of acquired agency. The parrot is an animal we habitually “programme” to repeat words that we assume it does not understand. Here, as it repeatedly walks in circles through what might be an infinite interior, without walls, the repetition of the action ceases to guarantee obedience to the programme. With each circuit, the possibility remains open that this object-character might acquire something resembling intention, or an agency that no longer coincides with the function assigned to it.
Returning to Aladdin’s lamp, and to the question of interiority and agency, its interest lies less in its fantastical dimension than in the suspicion that an object or situation might always contain more than its form would lead us to expect. In the works of Loureiro and Taborda, this distance between appearance, function and action never fully stabilises: objects partially comply with the rules that make them recognisable, only to then deviate from them. Perhaps, then, the question is another one: when does an object cease to be a support and become a performer in its own right?
Isabel Cordovil